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As alminhas(1) consubstanciam uma forma de religiosidade popular de matriz cristã mas que não deixa de evocar remotos cultos pagãos. A determinação da sua origem não é consensual, porquanto alguns tendam a associá-la aos Lares Viales e Lares Compitales romanos, encarando-as como uma herança atávica dessas formas de culto, outros estudiosos recusam liminarmente esta posição, defendendo que a sua origem deve ser equacionada à luz da acção da Contra-Reforma tridentina, que revitalizou o culto das almas, numa estratégia de defesa da concepção do Purgatório, profundamente abalada pelas ofensivas protestantes.

Sob a forma de monólitos de pedra, enquadradas por modestas construções de cimento ou engastadas em paredes e muros, a presença das alminhas no concelho de Condeixa-a-Nova, sobretudo no espaço rural, é uma constante; a sua localização em ermos ou no interior de povoações ocorre preferencialmente em encruzilhadas ou situações de fronteira, facto este que, longe de registar uma coincidência, reveste um significado mais profundo.

Com efeito, a configuração cruciforme ou a noção de fronteira pressupõem o intersectar ou a contiguidade de dois caminhos, encontrando esta realidade física correspondência num plano espiritual. Enquanto figurações simbólicas das almas no purgatório — encruzilhada entre a vida e a morte, fronteira entre o Céu e o Inferno — as alminhas assumem-se como mediadoras entre o terreno e o extra-terreno. A devoção que lhes é dedicada sugere uma cumplicidade entre vivos e mortos e a diluição da fronteira entre os dois mundos: por um lado, a alminha solicita ao crente a oração e o alumiar da lamparina, capazes de resgatar as almas do seu penar; em troca, ilumina o caminho do crente, exercendo uma protecção tutelar. As inscrições que mais frequentemente acompanham as alminhas são, a este título, significativas: "Ó vós que aqui vindes/ tão descuidados de nós/ lembrai-vos das nossas almas /que nós nos lembramos de vós” — sugerindo essa “bilateralidade contratual” — ou "Ó vós que ides passando/Lembrai-vos das almas/ que estão penando" — lembrando, ao homem, a sua transitoriedade.

O alcance da sua mensagem integra-se, pois, num registo de espiritualidade que sobrepõe a lógica da fé à razão especulativa e a que não é de todo alheia uma certa superstição.

(1) Vide a propósito: ABREU, Fernando e MIRANDA, Rui (2001), Alminhas do Concelho de Condeixa-a-Nova — Levantamento fotográfico, Câmara Municipal de Condeixa.

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