A Páscoa assinala indubitavelmente um dos momentos mais importantes do calendário litúrgico. E no rastreio das tradições do concelho de Condeixa-a-Nova, em que tantas perderam já a força da sua mensagem, é justamente no período pascal e quaresmal que se filiam ainda as tradições de maior vitalidade.
Assim, logo após a folia e os excessos do Carnaval, principia a Quaresma, na Quarta-feira de Cinzas, estendendo-se durante sete semanas de celebração penitencial até à Páscoa. O Canto das Almas, tradição que ainda se preserva na Eira Pedrinha, integra-se justamente na reflexão sobre a condição humana que a Quaresma pretende instaurar: “Lembra-te, ó Homem, que és pó e ao pó hás-de voltar”. Dois grupos de homens percorrem durante alguns domingos deste período as ruas da freguesia — entoando quadras em que ecoa a religiosidade popular — com o propósito de recolher esmolas para, ao longo de todo o ano, encomendar missas pelas almas dos defuntos.
Por seu turno, a Função dos Passos (vulgarmente designada como Festa dos Passos) visa a representação da caminhada de Jesus até ao Calvário, em consonância com o relato bíblico. Esta função é precedida pela procissão das velas, que tem lugar na véspera, na qual o badalar do sino e a música triste e compassada de uma banda filarmónica criam o ambiente e a solenidade que este momento exige. No dia seguinte, realiza-se então a procissão, que sai da capela do Palácio Sotto Mayor, na qual a Verónica canta o Miserere Mei em sete pontos de um percurso (passos), especialmente preparados para o efeito; segue-se-lhe o sermão do encontro, com as imagens do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora da Soledade, procedendo de ruas diferentes, a convergirem no mesmo espaço. Por fim, e já na Igreja — perante a reunião de todos — é feito o sermão do Calvário.
A Festa do Senhor dos Passos reveste-se de grande importância, na vila de Condeixa-a-Nova, envolvendo a participação de um largo número de fiéis e servindo de pretexto para se juntarem à mesma mesa familiares e amigos, a fim de saborearem o tradicional cabrito.
A Semana Santa — que antecede o Domingo de Páscoa — impõe-se como o período de maior ressonância religiosa da Quaresma. É justamente na Sexta-Feira Santa que, ao anoitecer, se faz o Enterro do Senhor na freguesia da Ega, com uma procissão que percorre a rua principal. Aos cânticos da Verónica sucede, já na Igreja, o Sermão pregado a partir do púlpito, ao mesmo tempo que se procede ao enterro do Senhor, envolto em panos pretos, num sepulcro engastado no altar. A celebração termina com um cântico alusivo à morte do Senhor, enquanto todos beijam os véus que lhe envolveram o corpo durante o cortejo fúnebre.
· Para uma pesquisa mais exaustiva das tradições do concelho de Condeixa-a-Nova vide: PESSOA, Maria de Fátima Bandeira e GRILO, Maria do Rosário (1995), Do Carnaval à Páscoa.
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