A bom Porto com Sophia

Lérias, Letras & Companhia e professores do Agrupamento de Escolas de Condeixa-a-Nova reúnem-se para roteiro literário em memória de Sophia de Mello Breyner Andresen. O itinerário percorre alguns locais da Invicta, onde viveu, cruzando dados biográficos com referências literárias.

 

“Há lugares sagrados, sabe? Mas isso são coisas que só se escrevem nos contos e nos poemas”.Mas há também nomes predestinados. Com infalível presciência para o lugar que vão ocupar no mundo. Como Sophia… alguém que fez da poesia uma forma de vida.

Celebram-se 100 anos desde que foi lavrado o assento de nascimento que lhe conferiu legalmente o nome de Sophia de Mello Breyner Andresen, a 6 de novembro de 1919, no Porto. Na altura, apenas um nome incomum. Hoje, um dos maiores da literatura portuguesa.

Da infância aristocrática e feliz passada na cidade,hoje Invicta, ficaram imagens e memórias que pontilham, de forma explícita ou alusiva, a sua obra poética e ficcional.Vivências de intensidade variável, de culto aos grandes espaços naturais, momentos afectuosos com os seres e as coisas e lugares marcantes, como a quinta da família, no Campo Alegre.

Seria este espaço, de extensos e belos jardins, que a inspiraria durante toda a vida e cujas sensações iria traduzir na escrita, destacando-se a liberdade para as brincadeiras de criança, presentes nos livros infanto juvenis e nos poemas em que a natureza domina.

E é neste espaço que Sophia é agora, mais do que ponto de chegada, ponto de partida para um roteiro cultural e literário em torno dos valores devotos à sua obra e a qualquer outra em geral.

O destinatário? Esse conjunto de indivíduos que se reúne em “Lérias, Letras &Companhia”, pela paixão literária, pelo país, pelas suas gentes, e que tem vindo a desenvolver trabalho sobre a autora e a sua obra, neste último trimestre. Mas também a um pequeno rol de professores do Agrupamento de Escolas de Condeixa que se associaram à iniciativa como visita de campo preparatória, por força alusiva à temática do corrente ano lectivo.

Já o percurso, esse, começa onde o rapaz de bronze se fez. É a fachada de cor atípica da casa Andresen que recebe os visitantes prestes a iniciar a visita pelo Jardim Botânico do Porto, espaço que, em tempos, e tal como o nome indicia, pertenceu à família de Sophia de Mello Breyner Andresen. Um “território fabuloso”, com um imenso jardim romântico, composto por várias estufas de plantas exóticas, inúmeras árvores de fruto e lagos, onde aliás durante a infância tantas vezes brincou livremente, e de onde Sophia facilmente viria a extrair mundos encantados.

Hoje, local pretensioso em mostrar a diversidade biológica, relacionando-a com a História e a Literatura, a realidade histórica do jardim e da propriedade mistura-se com a ficção numa celebração do passado.Rodeado de todos os lados por um sem número de especificidades botânicas, especialmente as que inspiraram “O Rapaz de Bronze”, como o carvalho do Gladíolo,ou o “Jardim dos Jotas” - que o avô de Sophia, João,mandou cultivar para a esposa, Joana, como prova do seu amor -,o espaço é um dos mais representativos da casta Andresen, encerrando nele mesmo uma beleza romântica única.

Facto aliás nada estranhável, já que de espaços verdes notáveis está a Invicta cheia. Apesar de breve, a seguinte incursão à Biblioteca Municipal Almeida Garrett, situada nos Jardins do Palácio de Cristal, permitiu vislumbrar a razão pela qual é considerado um dos melhores do mundo.

Mas, “ir a Roma e não ver o Papa”? Cidade ideal para quem desenvolve um gosto particular pela literatura e toda essa afinidade com as letras, torna-se indispensável a admiração, quase poética, do edifício emblemático que acolhe a Livraria Lello. Porta viva de acesso à história, há mais de um século que a Livraria tem sido uma importante vitrine da literatura portuguesa, tanto a nível nacional como internacional, ajudando a exportar a literatura portuguesa para o resto do mundo. De entre a história, a belíssima, extraordinária e imperdível arquitectura – os vitrais, a emblemática escadaria, os bustos das gentes do Porto – as edições próprias, as salas temáticas, …, o tempo mostrou-se generoso, permitindo uma escapadinha visual demorada pela lombada dos livros que compõem estantes de 138 anos.

 

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