Media e Censura - um percurso ao longo da História

As turmas do 6º ano da EB nº2 de Condeixa-a-Nova foram à biblioteca escolar para realizar uma reflexão sobre as diferentes formas de censura que a Humanidade tem vindo a ser sujeita, nomeadamente no que aos média diz respeito. A literacia dos média esteve em evidência, a propósito da exploração dos recursos da exposição “Cantinho da Leitura” do Centro de Documentação 25 de Abril, que nos ofereceu um conjunto de periódicos do tempo do Estado Novo e dos pós-revolução.

 

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Esse acervo inspirou-nos para uma viagem no tempo, desde a invenção da imprensa, desenvolvida entre os anos de 1439 e 1440. Em traços largos, comentamos a forma como a informação escrita e a dimensão ficcional foi evoluindo em relação aos públicos que foram surgindo, centrando a nossa atenção no período liberal, republicano, na posterior  Ditadura Nacional (1926–1933), no Estado Novo de Salazar e Marcello Caetano (1933–1974) e o pós-revolução, até aos dias de hoje. 

 

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O mais longo regime autoritário na Europa Ocidental durante o séc. XX, estendendo-se por um período de 48 anos, trouxe a Portugal o período sombrio da repressão, do controlo da PIDE, da atividade intensa dos censores. Era uma sociedade agrilhoada que consumia informação truncada, mastigada, enviesada por um sistema unívoco. Os media eram totalmente controlados pela máquina do Estado e os alunos puderam constatar isso mesmo nos espécimes documentais autênticos que lhes foram fornecidos.

A questão que se coloca é se hoje há censura.

Através de vídeos e de um powerpoint, os alunos puderam pensar sobre as limitações à nossa liberdade individual, exercida através dos media, dos grandes grupos económicos e designadamente dos meios digitais desregulados. Na verdade, o ambiente mediático é dotado de uma multidimensionalidade crescente e as redes de informação complexificam-se. O cidadão comum hodierno é produtor/veículo de informação (o prosumer), daí que a sua responsabilidade de ação no mundo digital engrandeça e se torne central na forma como se relaciona com o mundo que o cerca. As “echo chambers” transportam consigo o verosímil, põem diante dos nossos olhos os conteúdos filtrados e guiam-nos através dos seus algoritmos.   

Tal quadro, levanta-nos questões no campo da ética e mesmo do exercício básico de cidadania, por isso a literacia mediática, enquanto capacidade de aceder aos media, de compreender e avaliar de modo crítico os diferentes aspetos dos media e dos seus conteúdos e de criar comunicações em diversos contextos , afigura-se como um aspeto prioritário a trabalhar com os aluno do século XXI. Pretendemos gerar a consciencialização e a intervenção sobre as novas formas de censura que crescem e se disseminam na atualidade, transformando cada pessoa, instituição, empresa ou governo num potencial censor ou vítima. São exemplo de áreas da atual experiência da censura, o cancelamento social sem direito de defesa ou contraditório, a manipulação de ideias através de desinformação, acesso indevido a dados pessoais e utilização de algoritmos, o excesso de informação que impede a decisão com base em informação relevante e a iliteracia da leitura, da informação, dos media e do digital. 

 

Neste pressuposto, a sessão terminou com uma oficina de escrita em que os alunos se tornaram produtores de informação, construindo uma notícia. A partir de fotocópias de páginas de periódicos do Estado Novo, foram colocadas janelas de acesso a partes do texto que foram aproveitadas para criar novos factos para o público de hoje. Através do esquema da pirâmide invertida, cada grupo usou da sua liberdade para produzir informação, com o rigor e a transparência que se requer no campo da ética jornalística.

 

Carla Fernandes (professora bibliotecária)

 

 

 

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